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Restauração, Conservação e Avaliação de Armas Novas e Antigas

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O processo de restauração que, geralmente é executado em armas antigas ou novas sempre foi um assunto muito complexo e polêmico, pois envolve diversos fatores, em vários graus de dificuldade ou de detalhes, para que se possa estabelecer até que ponto se deve chegar numa reforma ou até onde valerá a pena executá-la. Como toda peça ou obra de arte, principalmente as bem valiosas, uma arma antiga ou semi-nova, com valor histórico ou não, a princípio deveria ser mantida rigorosamente na sua forma original. O difícil é estabelecer o limite entre deixar como está ou reformar.

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Par de pistolas de duelo francesas, nunca disparadas, da Manufacture Versailles 1756, com sistema de pederneira, vendidas em leilão nos Estados Unidos, com a caixa original com todos os acessórios, por cerca de US$ 430,000.00

Da mesma forma como se restauram veículos, atividade muito comum hoje em dia, desde que o compromisso seja o de manter a originalidade, nada impede que esse processo possa ser executado também em armas de fogo. Como várias outras peças de arte, armas também sofrem agressões de diversos agentes externos que comprometem sua aparência com o decorrer do tempo: manuseio constante, forma de preservação, oxidação natural do aço, corrosão e apodrecimento das peças de madeira.

a) Manuseio: mesmo em se tratando de peças de coleção, armas são passíveis de manuseio, durante a exibição das mesmas em exposições ou eventos particulares, e até do uso em estandes de tiro.

b) Preservação: a forma como armas são guardadas e conservadas é um fator primordial para manter o máximo de sua originalidade. Armas guardadas em coldres ou em caixas de papelão, por exemplo, além da retenção de umidade pelo couro e papel, sofrem de desgaste superficial pela fricção com esses materiais, atacando seu acabamento externo e desgastando  as marcas naturais de usinagem e arredondando os cantos vivos.

c) Oxidação natural: tanto armas com acabamento oxidado como as niqueladas podem sofrer processo de oxidação, ou ferrugem. Ferrugem parece ser a maior inimiga das armas e os curadores de museus procuram-nas como gaviões atrás de caça para encontrá-las nas peças expostas. Toda arma guardada por um certo tempo deve ser conservada livre de poeira e com uma leve camada de óleo, externamente.

O manuseio de armas por pessoas não usando luvas faz com que sejam atacadas pelo ácido úrico presente no suor das mãos e podem começar a enferrujar em questão de dias. O ideal é apresentá-las aos seus examinadores devidamente untadas em fina camada de óleo, para minimizar esse problema. Mesmo as recentes armas fabricadas em aço inox merecem o cuidado de estarem sempre limpas e lubrificadas.

Marcas de banco de prova, como se vê ao lado, devem ser preservadas a qualquer preço numa restauração.

d) Corrosão: o dano mais grave que uma arma pode sofrer é a corrosão, que pode ser interna ou externa. A corrosão agride o aço, criando póros e pequenos orifícios, um estrago praticamente impossível de ser reparado, a não ser com uso de técnicas de reposição de material bem custosas e especializadas. Felizmente a corrosão já existente pode ter seu processo paralizado, sendo a área limpa de ferrugem e mantendo-se engraxada constantemente.

Peças de madeira: vários danos são causados nas coronhas e placas de empunhadura, sendo os mais comuns as batidas e rachaduras. Há varias técnicas para reparo em madeira, que de certa forma são muito mais simples e fáceis de se executar do que em peças de metal. Uma tala de empunhadura, mesmo com seu acabamento zigrinado, ou até uma coronha inteira, podem ser feitas novamente copiando-as exatamente das peças originais, o que dificilmente se consegue com as peças metálicas, que exigem muitas vezes operações de usinagem complexas e ferramental especializado. Até algumas partes de coronha severamente danificadas por apodrecimento ou partidas podem, nas mãos de artesãos, serem restauradas totalmente.

Um bonito e prático “display” para armas longas e curtas, com portas de vidro escamoteáveis – proteção boa contra poeira

Armas de coleção, as que não são mais utilizadas para tiro, devem ser conservadas em ambiente seco, sempre com uma fina camada de óleo, internamente e externamente, tomando cuidado especial com as partes de metal que tenham contato direto com peças de madeira, isso devido à natural retenção de umidade existente neste material. As peças de madeira devem ser constantemente limpas e tratadas com óleo de linhaça ou peroba. De tempos em tempos, o interior dos canos devem ser limpos com trapos embebidos em óleo ou apetrechos específicos para limpeza existentes no comércio.

Infelizmente, e não é caso raro no Brasil, a quantidade de peças antigas que foram “reformadas” de alguma maneira por pessoas não qualificadas é muito grande.

Não é difícil de se encontrar para exame algumas peças, por vezes até raras, danificadas pelas reformas mal feitas, prejudicando a arma e desvalorizando-a completamente.

Os exemplos mais comuns são armas produzidas originalmente com acabamento oxidado e que foram reoxidadas por processos diferentes dos utilizados na época, polidas com escova para dar brilho superficial, e que perderam suas marcas e suas quinas, e pior ainda, quando foram niqueladas, douradas ou cromadas.

Na foto acima, uma pistola Parabellum P08 em estado de conservação até muito comum de se ver no Brasil – acabamento desgastado, com diversas marcas de corrosão (pittings), placas da empunhadura danificadas e canos com raiamentos inexistentes.

Avaliações

No que tange às avaliações executadas em  armas de fogo, pode-se afirmar que se trata de um dos assuntos mais polêmicos. Em muitas oportunidades tive o grande privilégio de examinar peças em estado totalmente original, bem como a desventura de presenciar, nas próprias mãos, uma peça rara e de alto valor histórico completamente adulterada por pessoas inexperientes. Muitas vezes essas pessoas, por desconhecerem as características originais da peça, ainda creem que sua arma, neste estado, ainda tenha um alto valor comercial e se sentem realmente ofendidas quando se explica as razões do porque isso pode não ser verdade. Por essa razão, a avaliação de uma peça é sempre algo delicado, pois pode afetar até a auto-estima das pessoas, que vêem nas suas peças, muito mais o valor estimativo, e ignoram o seu real estado.

Armas de fabricação recente, geralmente destinadas ao tiro esportivo ou defeza pessoal, mais ainda se estiverem em produção atual, são mais fáceis de negociar e avaliar pois há uma boa referência de preço, que é o seu valor comercial de venda no mercado. Porém, peças antigas são mais complicadas de se avaliar, pois entra em jogo uma série de fatores:

a) exame minucioso do estado geral externo e interno, avaliando-se condição mecânica e estado de raiamento, quando for o  caso.

b) estabelecer qual o tipo correto de mercado indicado para aquela peça, se é para atividade de tiro, defesa pessoal ou colecionismo, pois dependendo disso, os valores a serem estabelecidos mudam consideravelmente. Há armas que aos olhos de colecionadores podem não possuir valor algum, porém, no foco de atiradores ou simplesmente para defesa pessoal, podem atingir patamares de preço bem diferentes.

c) no caso de armas antigas, avaliar cuidadosamente o seu grau de originalidade, como o acabamento, presença de marcas do fabricante ou marcas de prova; seu valor histórico, seja em relação ao Brasil ou à algum outro evento importante no mundo; a presença ou não de acessórios que poderiam vir obrigatoriamente, ou não, acompanhando a peça, como baionetas, varetas de limpeza, coronhas destacáveis, coldres, caixas, etc.

d) no caso de peça destinada a colecionismo, avaliar se sofreu restauração ou não. No caso de ter sido restaurada, verificar em que condições isso foi feito e se foram preservadas as catacterísticas originais, como o tipo de acabamento tanto das partes de metal como de madeira.

e) no caso de armas antigas em estado original, estabelecer o grau de originalidade, baseando-se em parâmetros nem sempre muito precisos mas necessários, como por exemplo, a área da superfície metálica que ainda conserva o acabamento original.

Muitas entidades dedicadas ao colecionismo no mundo criaram normas para isso, como a elaborada pela National Rifle Association, dos Estados Unidos, a N.R.A., uma das mais aceitas e utilizadas normas na atualidade. Vejamos como isso funciona:

Classificação da NRA para armas NOVAS:

CONDIÇÃO DE NOVA: ainda não vendida no mercado, em condições tais quais saiu da linha de produção do fabricante.

CONDIÇÃO PERFEITA: já adquirida no comércio, porém em condição de nova, sem uso, sem sequer ter sido usada, “unfired“.

CONDIÇÃO EXCELENTE : estado de nova, pouco uso, já com disparos efetuados, nenhum detalhe no acabamento e nas peças de madeira, oxidação perfeita com pequenas excessões na boca do cano ou nos cantos vivos.

CONDIÇÃO MUITO BOA: perfeito estado de funcionamento, sem desgastes apreciáveis na superfície e nas quinas, sem ferrugem ou corrosão, pequenos e imperceptíveis arranhões ou marcas de batida.

CONDIÇÃO BOA: funcionamento perfeito e seguro, alguns desgastes superficiais bem visíveis, áreas sem acabamento original mas sem ferrugem e corrosão.

CONDIÇÃO RUIM: bom funcionamento, sem peças quebradas, alguns ajustes mecânicos a serem executados, sem ferrugem mas com presença de “buracos” (pittings) mas que não interferem no funcionamento.

Classificação da NRA para armas ANTIGAS:

CONDIÇÃO DE FÁBRICA: todas as peças originais, acabamento 100% original e abrangendo 100% da superfície total da arma, estado de aparência impecável por dentro e por fora, absolutamente sem detalhes.

CONDIÇÃO EXCELENTE: todas as peças originais, cerca de 80% do acabamento original, sem ferrugem e corrosão, marcações nítidas e profundas, número serial bem visível, desenhos existentes na madeira e metal perfeitos, zigrinado nas talas e coronhas sem danos, raiamento perfeito.

CONDIÇÃO MUITO BOA: todas as peças originais, cerca de 30% a 40% do acabamento original, sem ferrugem e corrosão, marcações nítidas mas não tão profundas, número serial visível, desenhos existentes na madeira e metal perceptíveis, zigrinado nas talas e coronhas com poucos danos, quinas vivas, marcas originais de ferramental visíveis, raiamento aceitável.

Marcas e o logotipo do fabricante, como o famoso “cavalinho rampante” nesta pistola Colt modelo 1903, devem ser mantidas a todo custo em um processo de recuperação da arma, bem como as marcas do banco de provas vistas na foto.

CONDIÇÃO BOA: algumas peças de menor importância reparadas ou refeitas, acabamento original inexistente ou reoxidação feita com processo similar ao da época, algumas marcas de corrosão e “pittings”,  marcações ainda legíveis, número serial legível, desenhos existentes na madeira e metal desgastados, madeira restaurada e re-envernizada, zigrinado nas talas e coronhas desgastados, pequenos riscos e batidas nas peças de madeira, quinas levemente arredondadas, raiamento não aceitável.

CONDIÇÃO RUIM: várias peças reparadas ou refeitas, acabamento original inexistente, oxidação refeita mas com processo não condizente com o da época, diversas marcas de corrosão e “pittings”,  marcações ilegíveis, número serial legível, desenhos existentes na madeira e metal bem desgastados, madeira restaurada e re-envernizada e possivelmente reparada por quebras, zigrinado nas talas e coronhas desgastados, quinas arredondadas, raiamento inexistente.

Detalhe de um revólver Smith & Wesson, modelo “top-break”, mecanismo perfeito, ainda com 60 a 70% da oxidação original mas apresentando diversas marcas de batidas e riscos – uma peça que merece ser seriamente avaliada para restauração ou não. 

CONDIÇÃO PÉSSIMA: várias peças quebradas, reparadas ou refeitas, acabamento original inexistente e em péssimas condições, corrosão e “pittings” generalizados, sem marcações legíveis, número serial inexistente ou apagado, desenhos existentes na madeira e metal desgastados, madeira quebrada ou restaurada mas em condições improvisadas, zigrinado nas talas e coronhas inexistentes, quinas arredondadas, raiamento inexistente; arma mecanicamente fora de operação, totalmente indesejada por colecionadores.

Detalhe do mecanismo de uma espingarda de um cano, totalmente tomada por corossão externa mas com peças internas ainda bem preservadas.

Além disso, alguns outros parâmetros podem ser empregados:

a) porcentagem do acabamento original presente na arma, método hoje muito usado nos meios de colecionismo e no famoso e conceituado livro norte-americano Blue Book of Gun Values, inclusive com site na Internet oferecendo dados sobre valores de armas antigas. É importante citar que esse método reporta o percentual de acabamento original que PERMANECEU na peça. Se a arma passou por restauração no acabamento, esse sistema não deverá ser utilizado. No caso do livro acima, os dados lá informados se referem tão somente à peças com acabamento original.

b) alguns autores e especialistas criaram uma abrangência maior na definição do acabamento, visando uma precisão maior, que leva em conta a idade da peça. Daí que obtemos a seguinte tabela:

CONDIÇÃO EXCELENTE:

DATA DE FABRICAÇÃO ARMAS OXIDADAS ARMAS NIQUELADAS
após 1945 98% 99+%
1920-1945 95% 98%
1890-1920 90% 95%
1865-1890 85% 90%
pré 1865 80% 85%

CONDIÇÃO BOA:

DATA DE FABRICAÇÃO ARMAS OXIDADAS ARMAS NIQUELADAS
1920-1945 90 % 95%
1890-1920 70% 80%
1865-1890 50% 70%
pré 1865 30% 50%

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Por essas e outras razões, o assunto “Avaliação de Armas de Fogo'” tem suas limitações, principalmente quando não se tem a oportunidade de examinar a peça “ao vivo”, condição sine qua non para qualquer tomada de dados.

Muitos leitores solicitam, constantemente, que lhes dê uma idéia de preço, muitas vezes sem fornecer subsídios para isso. Essa é uma das razões do porque evitamos fazer avaliações sem sermos providos de bons detalhes da peça.  A partir de julho de 2013 passamos a pedir uma doação para fazer avaliações em armas. Uma avaliação bem feita só pode ser correta e sem margem de dúvidas examinando-se a peça nas mãos, de forma cuidadosa e demorada. Os mínimos detalhes, muitas vezes passando despercebidos de olhos menos treinados, pode significar muito nesses exames. Às vezes, até uma desmontagem parcial é necessária.

Infelizmente, em nosso país, é quase impossível termos essa chance de exame “in-loco”, devido às dimensões territoriais do Brasil. Em casos extremos, pode-se ter alguma idéia da situação de uma peça com o envio de fotografias. Porém, infelizmente, não podem ser fotografias comuns: necessitam possuir alta qualidade, foco e iluminação perfeitas, “close-ups” de detalhes e de marcas específicas e terem sido obtidas de vários ângulos. Sabemos, entretanto, que nem todos os interessados possuem equipamentos bons o suficiente para tais exigências e muitas vezes desconhecem as técnicas exigidas para se obter fotos deste nível.

Além disso, nosso país não possui uma tradição colecionista e de preservação de peças históricas, nem de armas e tampouco de diversos outros ítens, e são raras e quase inexistentes a literatura e edição de guias especializados nesses assuntos, com excessão talvez na área de filatelia e da numismática.

Por esses motivos é que, na maioria das vezes, somos forçados a recusar avaliações, embora sabemos que estamos deixando de ajudar um proprietário que precisa de auxílio para fazer um negócio ou simplesmente saber quanto vale o que tem em mãos.

Desta forma, é muito comum pessoas que acreditam piamente ter em mãos uma peça extremamente valiosa porque soube, através de um amigo entendido no assunto, “ter sido usada na Guerra do Paraguai”, ou que a família conta que o avô “trouxe da II Guerra, presente de um oficial alemão”; mais ainda, o “meu vizinho, que entende muito de armas, disse que vale uma fortuna” , e por aí vai. Ao se defrontarem com a realidade expostas por avaliações sérias, se sentem menosprezadas e ofendidas, pois esses supostos “entendidos no assunto” menosprezaram um verdadeiro bem de família.

Outro grande problema, que é uma faca de dois gumes, são os oportunistas e entendidos “de plantão”, que podem agir de duas maneiras: ou prejudicando o interessado oferecendo comprar a peça por uma ninharia, alegando que não “vale grande coisa” ou inviabiliza o negócio, convencendo o proprietário da peça que a arma vale um “dinheirão”. Quem sempre leva a pior é o pobre e inocente proprietário pois, ou vende a peça, que até pode ser realmente valiosa, por um preço abaixo do mercado ou não consegue vender, pois o valor estipulado pelo “especialista no assunto” é totalmente irreal e fora de propósito.

O Brasil recebeu nas primeiras décadas do século XX milhares de armas portáteis, importadas principalmente da Espanha e da Bélgica, muito mais do que se importava dos USA, onde a qualidade de fabricação era levada mais a sério, em detrimento de um custo mais alto. Por esse motivo é que se vê muito mais revólveres espanhóis e belgas do que Smith & Wessons e Colts. A exceção fica por conta das carabina e rifles Winchester, que também vieram para cá às pencas pois não tinham rivais européias à sua altura. A grande oferta de revólveres  espanhóis, a maioria cópias dos S&W e de Colt, garruchas de dois canos oriundas da Bélgica e de qualidade sofrível e algumas espingardas vindas também desses países, fazem com que colecionadores de modo geral não se interessem por elas, o que acarreta um valor de mercado irrisório.

Outro erro corriqueiro em nosso país é tentar estabelecer valores para armas antigas com parâmetros em dólares, com preços praticados nos Estados Unidos, por exemplo. Em alguns casos específicos, isso pode até ser visto como correto, mas na maior parte das vezes não é. De novo, falando da nossa cultura em relação ao colecionismo, armas de fogo, especificamente, são consideradas nos Estados Unidos de uma forma completamente diferente do Brasil. Aqui, os colecionadores sérios são raríssimos e infelizmente, na nossa atual realidade, são elementos mal vistos pelos adeptos das tendências desarmamentistas que, em casos extremos, chegam a taxá-los de maníacos e até, pasmem, de serem “fornecedores” de armas ilegais à bandidagem.

Como o Brasil é um país sem tradições, ou que simplesmente não costuma se lembrar delas, com um sentido de civilidade e patriotismo limitados, o conceito de colecionar qualquer objeto que seja, não é muito valorizado. Manter e conservar objetos de arte ou peças de valor histórico, e as armas se incluem nesta categoria, quer muitos aceitem ou não, é preservar a história e a tradição de um povo. Percebe-se fácil como essas condições aqui no Brasil são pobres, tão somente  avaliando-se a quantidade de museus que temos em funcionamento, bem como a relativa precariedade dos acervos exibidos.

Uma carabina belga Comblain, do contrato brasileiro de 1872, arma muito apreciada e valorizada por colecionadores do Brasil

Portanto, e voltando ao nosso foco, determinadas armas antigas possuem um valor muito maior no seu país de origem do que em um país estrangeiro, principalmente se ela se destacou historicamente de alguma forma, participando de feitos heróicos ou de batalhas memoráveis e importantes. Por exemplo, uma carabina belga Comblain, modelo do contrato brasileiro, utilizada aqui por várias décadas desde sua adoção em 1873 até meados de 1900, em bom estado, tem muito mais valor para colecionadores brasileiros do que as similares que são vendidas nos Estados Unidos. Por outro lado, um fuzil Springfield de percussão, modelo de 1862, tal qual era adotado pelo Exército da União durante a Guerra Civil Americana, de 1860 a 1865, ainda vale lá pequenas fortunas quando em estado excelente de condição, detalhe que aqui no Brasil já não faria muita diferença.

A idade de uma arma também não possui relação alguma com seu valor. Não é porque uma arma é antiga que, necessariamente, vale mais que uma nova. Os preços de armas novas no Brasil, vendidas em lojas, são completamente fora da realidade. Armas são severamente taxadas com os impostos, de forma intencional, e isso causa o simples fato de uma mesma arma nova, fabricada no Brasil e à venda em lojas, pode-se pagar quase três vezes mais, já se descontando o efeito do câmbio. Um revólver Taurus M66, cal. 38SPL +P, por exemplo, custa nos USA exatamente US$ 500,00; vamos estimar ao cambio atual (fev/2012) cerca de R$ 900,00. Um modelo muito similar, como o 82S vendido aqui em lojas, sai por R$ 2.800,00.

O que ocorre muitas vezes é avaliarmos uma pistola semi-automática, como por exemplo uma Walther P-38 em cal. 9mm Parabellum, produzida na época da II Guerra, em bom estado, dos modelos mais comuns e que foram produzidos aos milhares naquela oportunidade, em valores em torno de R$ 2.500,00 a R$ 3.000,00. Daí o vendedor compara esse preço com um revolver nacional, como o exemplo acima, e considera um absurdo que uma arma “rara” como a dele, possa valer tanto quanto um reles e comum revólver nacional.

Finalizando, temos o aspecto legal. Armas de fogo são objetos de uso controlado e sujeitas às normas específicas, muito rígidas no país, pelo menos para aqueles que respeitam as leis. O mercado responde de forma diferente para cada caso. Armas não legalizadas, sem qualquer “papel”, normalmente são recusadas por colecionadores e atiradores, pois esses não conseguirão legalizá-las. Daí que uma arma como essa só poderá ser comercializada “por baixo do pano”, o que é crime. Até o ano de 2009 o governo havia posto em prática uma espécia de “anistia”, o que levou muita gente a registrar armas, até então ilegais, na Polícia Federal, um processo muito simples e até, estranhamente, facilitado demais.

O problema é que essas pessoas de boa índole se deparam, agora, com um dilema para o qual não foram avisadas: a renovação desses registros está sendo dificultada ao máximo e com diversas exigências difíceis de serem cumpridas, e muita gente não conseguirá efetuar esse processo, tendo que abrir mão de sua peça para confisco involuntário.

Em resumo, armas sem registro são armas proscritas, ilegais, sujeitas à apreensão e a prisão tanto por posse ou por porte ilegais, e assim, não possuem valores de referência para o mercado. Para procedermos a uma avaliação, necessitamos antes de mais nada um breve histórico da peça (de onde veio, como chegou às mãos do interessado, quando isso ocorreu, etc.) Posteriormente, o envio de fotografias obtidas com cameras digitais (e não telefones) é fundamental, com foco e iluminação perfeitos, close-ups de marcas de fabricante e de provas, seguido de detalhes sobre o funcionamento, peças quebradas, condições do cano, etc.

O mosquete Springfield modelo 1862, sistema de percussão, uma arma histórica nos USA, participante ativa que foi na Guerra de Secessão, travada naquele país entre 1860 e 1865. Nos USA, essa arma em bom estado atinge valores entre US$ 5.000 a US$ 8.000.

Técnicas de restauração e acabamento em peças de aço

O que tentarei expor aqui são informações baseadas em experiências próprias e em bibliografia especializada. Não são técnicas infalíveis e nem de resultado 100% garantido. O que poderá dar certo em um caso poderá, também, dar errado em outro. Tudo depende de qualidade de material, o estado geral da arma a ser preparada e da ferramentas utilizadas.

Preparação do material

A preparação das peças a serem oxidadas é um dos pontos mais críticos de um processo de restauração. Deve-se tomar um extremo cuidado com danos causados às marcas típicas de peças usinadas, como as deixadas por processo de fresagem, por exemplo, a fim de manter a arma com aparência mais original possível. Deve-se evitar o polimento com uso de rodas de pano com materiais abrasivos, ou utilizá-la com muito cuidado em superfícies onde não há quinas ou vincos, como nos canos, por exemplo. A única vantagem do uso das rodas de polimento sobre um acabamento com uso de lixas está na rapidez e no brilho maior que é conseguido após a oxidação.

Oxidação à quente

Neste processo exige-se uma instalação adequada, ambiente ventilado e uso de roupas próprias e luvas. Há liberação de gases resultantes da fervura e que não devem ser inalados. Além dos materiais químicos, necessita-se de recepientes grandes o suficiente para comportar as peças completamente mergulhadas. Os canos devem ser oxidados em canaletas ou calhas construídas de forma a caberem em seu interior completamente. O aquecimento tem que ser uniforme, portanto, no caso das calhas, necessita-se de queimadores de gas longos, abrangendo toda a extensão. A temperatura deve ser mantida com uso de termômetro de imersão.

Existem na WEB diversos sites com diferentes fórmulas e métodos de oxidação por imersão em banho quente. Não é a minha intenção me prolongar neste assunto, pois se trata de métodos especializados e que nem sempre se encontram ao alcance dos leitores. Na maior parte das vezes, seria preferível encaminhar a peça a uma empresa que execute o serviço de forma mais garantida. Para os mais curiosos ou que desejam ingressar nestas experiências, um artigo muito bom e completo é o que se acha neste link: http://www.airgun.com.br/forum/viewtopic.php?p=149508&sid=b867ade114a6457770b3fe2990826bbb.

A grosso modo, a fórmula básica da solução é:

600g/litro de hidróxido de sódio (soda cáustica), 10g/litro de nitrato de sódio,10g/litro de nitrito de sódio, tempo médio de imersão de 15 a 30 minutos, com temperatura de banho mantida em torno de 125º a 130º.

Como em todo o procedimento de oxidação, a frio ou à quente, as peças devem estar rigorosamente limpas de gordura. Veja mais detalhes sobre desengordurantes no capítulo abaixo, sobre o método de oxidação a frio.

Na oxidação a quente, todas as peças pequenas devem estar colocadas numa espécie de cesto e oxidadas ao mesmo tempo. Um fator importante é a desmontagem total da arma, não deixando parafusos e pinos em seus lugares, pois depois do processo pronto, a solução cáustica costuma “purgar’ por esses orifícios e ranhuras. Por isso, a lavagem final em água limpa das peças oxidadas é um ponto primordial do processo.

Oxidação à frio

Este é um método quase artesanal de oxidação, baseado em uma fórmula de origem dinamarquesa, do início do século XX, e que foi bastante empregada em armas militares por diversos fabricantes na Europa, como a Waffenfabrik Steyr (Áustria), a Deutsche Waffen und Munitionsfabrik (DWM) e a Waffenfrabrik Mauser (Alemanha) entre outras.  Credita-se ao fabricante Geværfabrikken Otterup Danmark, da Dinamarca, a criação dessa fórmula. Uma restauração e reoxidação de uma arma, originalmente oxidada a frio, deve obrigatoriamente levar-nos a empregar esse método. Segue a lista dos componentes:

Álcool a 90º – 150,0 gramas
Ácido Nítrico – 5,0 gramas
Água destilada – 250 ml
Sulfato de Cobre – 2,5 gramas
Percloreto de ferro líquido – 11,1 gramas
Sublimado Corrosivo – 0,6 gramas

Obs.: O Sublimado Corrosivo, conhecido comercialmente como Orravan, é o cloreto de mercúrio, ou até mesmo o bicloreto de mercúrio. É um produto cristalino de cor branca, solúvel em água, substância extremamente venenosa por ingestão, inalação ou absorção cutânea. Deve ser manipulada com todos os cuidados para não contactar com o corpo.

Preparação da fórmula:

Os produtos devem ser, após a completa dissolução de todos eles em água destilada, deixados descansar por cerca de 24 horas antes de serem utilizados; entretanto, deve ser bem agitado antes do uso por vários minutos. Não há restrições quanto à precedência dos produtos, ou seja, podem ser misturados em qualquer ordem.

Preparação das peças:

As peças devem estar na condição de aço polido, preferencialmente lixado. No caso de armas antigas, não se utilizava polimento das peças com escova de pano com massa polidora e sim, lixamento ou meramente bastava a própria usinagem, com suas marcas características. Se polir a peça em roda de pano com massa abrasiva, o resultado será uma oxidação mais “gloss”, brilhante, que não é uma característica de armas antigas. O lixamento final deve ser dado com gramatura 400 até 600, montadas em base sólida para apoio, para se conseguir acabamento perfeito. Muita atenção e cuidado com as marcas de prova e proceder ao reparo das quinas e dos cantos vivos, se necessário.

Desengordurar:

Esse é um procedimento crítico e primordial. As peças devem ser banhadas em solventes comuns como thinner ou aguarrás por alguns minutos e depois secadas ao ar livre, para evitar qualquer contato com a superfície.  Após isso, com uso de luvas sòmente, utilizar Tetracloreto de Carbono, Tolueno ou Hexanol para a limpesa com um pano rigorosamente limpo. O Tetracloreto de Carbono é um produto um pouco difícil de encontrar e cuidados extremos devem ser tomados, pois se trata de um coagulante violento e cancerígino.

O ideal é substituí-lo por Hexanol ou Tolueno, igualmente bem voláteis mas menos perigosos à saúde. Evitar à todo custo inalação e contato com a pele desses produtos, que são desengordurantes excelentes. Após essa limpesa, não tocar mais nas peças de forma alguma. Alternativamente pode-se usar o Álcool Isopropílico, mais fácil de se achar em farmácias. A finalidade de desengordurar com extrema eficiência se deve ao fato de que, ao aplicar a fórmula sobre a peça, apesar de ser bem líquida, recobrir a peça uniformemente e de maneira coesa, sem deixar “bolsas” ou falhas em alguns lugares, o que indicará áreas engorduradas.

Aplicação:

Fazer uma “boneca” com um chumaço de algodão, um pacote recém aberto de preferência. Usando luvas, aplicar a fórmula sobre a peça, como se estivesse envernizando-a com um esmalte, recobrindo-a totalmente e uniformemente. Um cotonete pode ser usado em peças pequenas. Se surgirem falhas onde o líquido não “recobriu”, necessita-se desengordurar melhor. Lave a peça com água e reinicie o processo de desengordurar. Após a total aplicação, deixar a peça em um local seco, longe do contato manual. Depois de 10 a 12 horas, a mesma deverá estar recoberta com uma fina camada de ferrugem de cor avermelhada.

Fervura e escovação

Após esse estágio, aquecer água limpa em ponto de fervura e mergulhar a peça durante uns 10 minutos, retirá-la e deixá-la secar ao ar livre, o que será rápido. Um dos pontos críticos do processo é a escolha da escova de aço que será usada a seguir. Há vários tipos de escovas de aço para serem montadas em furadeiras elétricas ou motores de esmeril, mas a maioria delas é dura demais. Essas escovas NUNCA devem ser utilizadas. Será necessário se encontrar uma escova de aço muito macia, com “pelos” bem finos. A que eu utilizava em meus testes foi adquirida na Rua Florêncio de Abreu, em SP. Uma vez montada, escovar a peça com muita suavidade para retirar a leve camada de ferrugem. Alguns usam a famosa esponja Bom Bril, mas o resultado não é muito perfeito por causa das reentrâncias que podem existir nas peças. A escovação é feita totalmente À SECO ! Após esse procedimento, a tonalidade do aço já apresenta uma leve escurecida.

O processo então se repete. Desengordurar a peça, aplicar nova camada de fórmula, secar 12 horas ou esperar enferrujar, mergulhar em banho de água fervente por uns 10 minutos, secar e escovar. Eu obtive a tonalidade azul-acinzentada similar às das pistolas Luger, por exemplo, em cerca de 6 a 7 vezes de repetição do processo. Percebe-se já, depois da 3ª ou 4ª demão, um endurecimento do material, o que aliás é muito bom, e que melhora a facilidade da remoção da ferrugem após esse estágio. Esse tipo de endurecimento é o que explica a durabilidade desse tipo de acabamento e uma resistência maior a riscos e batidas, o que não ocorre tanto nas oxidações de processo por banho quente.

Problemas:

Os problemas são raros e quase inexistentes, se tudo foi feito conforme o “figurino”. Em um dos casos que empreguei essa técnica, houve uma teimosa mancha de cor diferente na lateral de um ferrolho de uma arma, com tonalidade levemente azul escura-avermelhada, que se manteve presente em todas as etapas. Segundo informações obtidas na época, a arma havia sido niquelada anteriormente. Como um banho à base de cobre geralmente antecede o processo de niquelação, houve um enrustimento de cobre naquela área, que não foi totalmente eliminado na decapagem eletrolítica. Como era uma mancha muito pequena, acabou por ficar daquela forma, caso contrário, a arma teria que passar por um processo de eliminação de cobre. Trata-se de um trabalho longo, paciente, mas é muito gratificante quando se vê a peça atingindo aquela linda tonalidade típica das armas pré II Guerra. Mais ainda quando se vê que preservou-se as características originais nas peças e que, nas superfícies internas da arma, mantém-se a cor natural do aço, característica típica de armas oxidadas com esse método.

Soluções comerciais:

Existem no mercado americano e europeu uma oferta razoável de produtos destinados ao processo de oxidação a frio, com fórmulas já prontas e de fácil utilização. A diferença dessas soluções comerciais em relação à fórmula acima descrita está na maneira de aplicar e na coloração obtida, pouco diferente, geralmente mais azulada e similar à obtida na oxidação à banho quente.

Os produtos da firma norte-americana Birchwood Casey (http://www.birchwoodcasey.com/), denominados comercialmente como “Gun Blue”, “Super Blue” ou “Perma Blue”, são famosos e muito utilizados, com excelentes resultados e custo baixo, em valores por volta de US$ 10,00 a US$ 15,00 o frasco com 90ml de solução. Normalmente com duas ou tres aplicações, feitas de forma bem similar ao método da antiga oxidação “à boneca” explicado acima, já se obtém o resultado desejado. Um dos segredos desse método é nunca deixar o material mais do que um minuto em contato com a solução. Assim que a mesma for aplicada, depois de uma correta limpesa com desengraxante, lave a peça em água fria antes de 60 segundos. Seque a peça, aplique uma leve polida com esponja de aço e repita o procedimento.

Outra opção muito boa é a “Formula 44-4o Instant Gun Blue”, comercializada pela empresa Brownells (http://www.brownells.com/), por cerca de US$ 11,00 o frasco de 60 ml. Os produtos da Birchwood são encontrados com facilidade no e-Bay e a maioria dos fornecedores envia para o Brasil, assim como a loja Brownells. Algumas casas de armas especializadas de São Paulo também oferecem esses produtos.

Todo o processo de oxidação à frio necessita de uma certa “cura”. Após atingir a cor desejada, com a aplicação de várias camadas, limpe bem com esponja de aço e unte bem com óleo mineral, especial para uso em armas de fogo. Deixe passar uma noite e pela manhã, retire com esponja de aço um excesso de ferrugem, pois uma leve camada de óxido sempre é formada após o processo de oxidação à frio.

Niquelação

Trata-se de um banho de recapeamento, efetuado por processo de eletrólise e executado em empresas especializadas, conhecido também como banho de níquel. De modo geral, raríssimas armas saíam de fábrica com esse tipo de acabamento, mas foram comuns aqui no Brasil, nas décadas de 20 a 40, nos revólveres de fabricação espanhola e nas garruchas de dois canos, belgas ou espanholas. Quando bem feito, é durável e raramente enferruja ou descasca. A niquelação executada em uma arma que era originalmente oxidada é um “crime” a ser cometido e condenado por qualquer amante de armas.

No caso de peças originalmente fornecidas com acabamento niquelado e que necessitem de restauração, devem ser mantidas essas características, procedendo-se a uma remoção total do banho, por decapagem eletrolítica, lixamento e possível correção de imperfeições, como batidas e riscos profundos, e depois refeito o  recapeamento das  peças. A maior parte da empresas que praticam a niquelação apreciam polir a peça em roda de pano para aumentar o brilho final, o que é um problema pois geralmente desgastam-se as quinas, marcas de usinagem e marcas de fábrica.

Ao contrário dos banhos de oxidação e processo a frio, a niquelação não é um processo que se possa executar em casa ou numa instalação não especializada, pois envolve técnicas específicas, processos eletrolíticos e uso de materiais tóxicos. O correto nestes casos é sempre procurar um profissional para executar o serviço.

Técnicas de restauração e acabamento em peças de madeira

De modo geral as peças de madeira, componentes de uma arma, podem ser restauradas de maneira mais simples do que as peças de aço, pois raramente envolve perdas de marcas de fábrica e intrincados rebaixos e quinas. Se a coronha ou talas ainda mantém uma aparência boa, sem quebras e lascas, basta um trabalho feito com cuidado de remoção do antigo esmalte, verniz ou cera e tornar a aplicar esses produtos sobre elas. Durante vário séculos se utilizou do óleo de linhaça para dar brilho e proteção às coronhas. Até hoje ainda é um tipo de acabamento mais fácil e barato de se fazer. O verniz do tipo laca, dissolvida em álcool, foi por muito tempo empregado, uma opção muito comum em móveis. Produz uma camada fina e brilhante, deixando transparecer toda a beleza natutal dos veios da madeira. O verniz sintético de alto brilho ou a óleo não é muito recomendado para coronhas. Sua aparência não é muito apreciada  por colecionadores. No caso de coronhas previamente tratadas com esse tipo de verniz, e que geralmente se descascam com o tempo, o ideal é retirar todo a camada de verniz usando-se esponja de aço embebida em solução de aguarrás ou com uso de lixa para madeira de gramatura média, 100 a 200. Esperar secar e encerar a coronha com óleo de linhaça ou cera de carnaúba, ou ainda se for o caso, passar fina camada de laca.

Pequenas marcas de batidas e leves amassados podem ser resolvidos com uma solução simples: aquece-se um ferro de passar ou mesmo ferro de soldar, coloca-se um pano úmiso sobre o local danificado e esquenta-se com o ferro. A liberação de vapor sobre aquele dano ajudará as fibras da madeira a se levantarem, retornando à antiga condição, e as marcas praticamente desaparecem por completo.

O acabamento zigrinado de coronhas e talas, quando muito danificado, só deverá ser refeito com ferramentas especiais para esse trabalho e requer prática e habilidade, sendo preferível entregar a missão à pessoa habilitada. Quanto à excesso de sujeira e graxa, presentes nas partes fundas do zigrinado, basta cobrir e proteger os arredores da área zigrinada com fita crepe. Pincelar um pouco de aguarrás levemente diluída, na área afetada, esperar alguns minutos e com auxílio de uma escova de dentes ou algo similar,  retirar a sujeira do interior da madeira. Depois, uma pequena aplicação de óleo de linhaça ou de peroba resolve o problema.

Parafusos quebrados no interior de coronhas podem ser removidos usando-se uma furadeira com uma broca tipo copo, perfurando a área que circunda o parafuso. Depois retira-se o pedaço da madeira cortada com o parafuso em seu interior, com certa facilidade. Providencia-se um plug de madeira, de preferência de cot bastante similar e instala-se no orifício, com cola, como se fosse uma bucha.

Ao se re-envernizar uma coronha, o cuidado a ser tomado é retirar toda a ferragem existente e tomar muito cuidado para não desbastar demais a superfície e as áreas onde as peças se encaixam. A chapa da soleira, apor exemplo, ao ser montada de novo,  poderá ficar com sobras nas laterais.

Em resumo, reformar e restaurar uma arma é uma forma de arte e de razoável complexidade. Lance mão de ajuda de especialistas nas áreas de acabamento se não quiser arriscar a fazer um serviço não muito bom. De nada adianta restaurarmos uma peça, tentando com isso valorizá-la e acabarmos por piorar o seu estado e deixá-la com má aparência. Arma bem restaurada é aquela que , só quando examinada por olhos bem aguçados e experientes, percebe-se que passou por esse processo. A meta a ser cumprida é deixar a peça, o mais próximo que se conseguir, com a aparência fiel da arma original.

Written by Carlos F P Neto

29/04/2011 at 14:08

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