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A pistola Mars

Os últimos anos do século XIX foram marcados por uma espécie de revolução no campo de desenvolvimento de armas portáteis, especificamente nas armas curtas. Até a penúltima década daquele século, os revólveres dominaram totalmente esse cenário. A partir do início da última década, diversos projetos de armas semiautomáticas, alguns até bem esdrúxulos e extravagantes, começaram a surgir na Europa. Pistolas semiautomáticas como a Salvator Dormus (1890), a Schönberger de 1892 (temos um artigo sobre ela aqui no Armas On Line), a Borchardt de 1892 (veja o artigo sobre a Parabellum), a Mannlicher de 1894, a Mauser C96 de 1896 e tantas outras, foram desenvolvidas, produzidas e postas à prova. Algumas não passaram da fase de protótipo, mas outras adquiriam confiabilidade e fizeram sucesso comercial e militar. Das citadas acima, sem dúvida, destacamos a Borchardt, com cerca de 3.000 armas produzidas pela Loewe e DWM e que deu origem ao desenvolvimento da Parabellum (Luger), de 1899, e a Mauser C96, inquestionavelmente uma pistola que obteve enorme sucesso no mundo todo, durante cerca de 40 anos, gerando inúmeras cópias, cuja produção atingiu centenas de milhares de unidades.

Acima, os dois lados da pistola Mars, hoje um item muito cobiçado por colecionadores, com valores atingindo dezenas de milhares de dólares, quando surgem eventualmente no mercado. 

Nessa onda de se tentar desenvolver uma opção aos tradicionais revólveres, oferecendo uma arma mais rápida, acionamento de gatilho com menos esforço e geralmente com mais capacidade de cartuchos em seus carregadores, surge o projeto da pistola Mars, também chamada de Webley-Mars, que foi desenvolvido em 1900, por Hugh Gabbet-Fairfax, um inventor britânico da cidade de Birmingham, que tinha como intenção principal produzir uma pistola para uso militar que fosse a mais poderosa possível. Os primeiros doze protótipos foram feitos pelo tradicional fabricante Webley & Scott, sob a direção de William Whiting, o mesmo que posteriormente projetou a bem-sucedida série de pistolas da própria Webley.

A Mars estava disponível nos calibres 8,5 mm, 9 mm e em um equivalente ao .45 (11,43mm), utilizando câmaras longas e curtas, todos eles desenvolvidos pelo próprio Hugh Gabbet-Fairfax, e eram conhecidos por possuir uma balística excepcional. Os cartuchos eram todos do tipo com gargalo, no formato de “garrafinha”, com o diâmetro do projétil menor que o diâmetro traseiro do estojo, e exemplo do que já se encontrava em uso, como o 7,65mm Borchardt e o 7,63mm Mauser.

O cartucho .45 Mars Long, na época o mais poderoso cartucho de arma curta em existência,  produzia uma impressionante velocidade na boca do cano de 1.250 pés/segundo, enquanto os de 8,5 mm produziram incríveis 1.750 pés/seg. Comparemos com os contemporâneos .45 ACP a 855 pés/seg, o .455 Webley Auto a 700 pés/seg. e o Parabellum de 9 mm a aproximadamente 1.100 pés/seg. O British War Office testou a pistola, como uma provável substituta para o revólver de serviço .455 Webley, mas finalmente a rejeitou devido à demanda por munição especial e ao recuo excessivo causado não apenas pelos cartuchos poderosos que utilizava, mas também pelo complexo mecanismo baseado em recuo longo do cano, além do projeto não se prestar a uma produção econômica. Outra desvantagem muito criticada do projeto foi o fato dos estojos serem ejetados na parte bem posterior da pistola, quase sempre atingindo diretamente a face do atirador.

Uma das primeiras versões ainda em fase de protótipo da pistola Mars, mostrando o enorme martelo (cão) em posição de disparo. 

Tendo falhado em interessar às forças armadas, o projeto também não se mostrou um sucesso comercial. A empresa fundada por Gabbet-Fairfax foi declarada falida em 1903 e a produção foi retomada pelo Mars Automatic Pistol Syndicate, embora também tenham sofrido falência em 1907. Não se sabe exatamente quantas pistolas Mars foram fabricadas, sendo que as melhores estimativas ficam em torno de 60 e 80, embora uma das pistolas em existência seja conhecida com um número de série 195. Para citar um contemporâneo de Gabbet-Fairfax: “… ele permitiu que suas idéias vagassem muito na direção da balística de alta performance, e suas pistolas assumiram a forma de pequenos canhões”.

Mecanicamente a pistola Mars é realmente intrigante e extremamente complexa. Mesmo para a época, as soluções empregadas por Hugh Fairfax nesse projeto eram por demais ousadas e desnecessariamente complicadas.

A pistola Mars, da primeira versão, com seu carregador. Note a estranha localização do anel do fiel, na base do carregador ao invés de fixo à armação, como é o costume. Note também a estranha lingueta na parte superior do carregador, cuja função será explicada adiante. 

Desenhos esquemáticos da patente da pistola Mars

O sistema de trancamento de culatra utilizado nesse projeto é o baseado no longo recuo do cano. Atribui-se essa denominação quando o recuo do cano é feito por um percurso maior do que o comprimento do cartucho. Pistolas mais modernas e mesmo algumas da mesma época da Mars eram, preferencialmente, do sistema de curto recuo do cano, como a Mauser C96, a Luger, a Colt 1911, para citar as mais conhecidas. No caso da Mars, o ferrolho era posicionado bem na parte posterior da arma, e o travamento dele com o cano era feito por uma cabeça frontal dotada de um sistema de engate rotativo, método aliás usado hoje nas pistolas Desert Eagle, por exemplo, e em vários fuzis semiautomáticos. Para se alimentar a pistola, já com o carregador municiado, o ferrolho e o cano, ao qual o ferrolho estava solidário,  eram puxado para trás através de duas “orelhas” laterais. No momento em que esse conjunto atingia a posição máxima, a cabeça rotativa do ferrolho girava e liberava o cano, que por ação de uma mola espiral sob ele, retornava à sua posição inicial.

Os cartuchos municiados no carregador eram retirados pelo mecanismo pela parte posterior, e não impulsionados para a frente como nos carregadores comuns. O primeiro dos cartuchos ficava praticamente para fora do carregador, mas preso por uma lingueta.

Esquema onde se pode notar o sistema de carregamento, com a arma pronta para disparar: A é o cartucho já posicionado no cano, B é a peça levantadora, encarregada de extrair um cartucho novo do carregador, pela parte posterior dele, e levantá-lo em direção ao cano; C é o próximo cartucho a ser utilizado, já na sua posição apoiado na lâmina superior do carregador, e D é o ferrolho rotativo. 

Aqui temos a situação logo após o disparo. O conjunto cano e ferrolho recuam juntos e nesse movimento, o levantador já pega um cartucho novo do carregador, levando-o para trás. 

Aqui temos os momentos finais do processo: a cabeça rotativa do ferrolho gira e faz com que o cano se solte. Por intermédio de uma mola, o cano é trazido para a frente, na sua posição inicial. Isso faz com que o levantador, já com um novo cartucho em seu berço, se levante, lançando o estojo vazio para fora da arma e já posicionando de forma inclinada, o novo cartucho para ser inserido no cano. 

O que era realmente inusitado nesse mecanismo tão complexo era que, nesse exato momento que mostramos na figura acima, o ferrolho, que por lógica deveria retornar à frente, alimentando novo cartucho e trancando a culatra, não se fechava enquanto o dedo do atirador não aliviasse a tecla do gatilho. Enquanto o atirador mantivesse seu dedo pressionando o gatilho, a arma não completava o ciclo total. De acordo com alguns dados e informações da época, os primeiros exemplares da Mars não tinham essa particularidade. No entanto, com os testes efetuados por várias organizações e repartições do governo britânico, a reclamação geral é de que a arma, além do recuo muito forte, ainda sofria com um movimento muito violento de seu mecanismo, o que praticamente impedia a rápida recuperação da pontaria. Essa solução de segurar por um tempo a culatra aberta, até que o próprio atirador decida, aparentemente amenizava esse efeito.

Consta nos anais de documentação da arma que o capitão que era encarregado dos testes da Mars na Escola de Artilharia Naval, em 1902, observou em suas anotações: “Ninguém que atirou pelo menos uma vez com essa pistola gostaria de atirar novamente”. O uso da pistola  Mars foi descrito também como “singularmente desagradável, e alarmante”. Ironicamente, apesar desse retumbante fracasso, desde então, a arma tornou-se um item de colecionador muito almejado, devido à sua raridade e também como um exemplo dos primeiros desenvolvimentos em pistolas semi-automáticas.

 

Written by Carlos F P Neto

09/09/2019 às 16:09

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