Armas On-Line

Seu Portal sobre Armas, Tiro e Colecionismo na WEB

Afinal, é um Smith & Wesson ou um H.O.?

Um guia para identificação de revólveres espanhóis

O tempo passa, porém, a dúvida permanece: — É um Smith ou um “HO”? Para os mais estudiosos e entusiastas, a pergunta em si já se nota fundamentalmente equivocada pois parte da premissa de que só há uma empresa na Espanha que fabricava réplicas dos S&W, no caso a “HO”, que inclusive também é a forma errada de pronunciar suas inicias já que elas derivam de Orbea Hermanos, sendo o correto “OH”. Essa informação é possível ser verificada de forma bem simples apenas analisando as gravações no topo do cano destes revólveres, onde constam, na maioria dos casos, as iniciais dos seus fabricantes.

Porém, a principal questão desta dúvida é que ela sempre foi permeada de mitos e desinformação, muito por falta de interesse na cultura antiga em se aprofundar sobre as armas, mas também pela falta de interesse nos historiadores em catalogar algumas armas que, por mais que tenham história, não possuem tanto valor de mercado — que é o caso destas armas espanholas. E estes fatos nos levam aos dias atuais onde muitos se quer sabem o que é verdade ou boato que foi se passando de geração em geração.

Algo que me vem à cabeça agora, além do “HO” ser popularmente pronunciado ao contrário, são os calibres destas armas onde, diferente dos S&W M&P que já nasceram para utilizar pólvora nitro (pólvora atual, sem fumaça) .32 S&W e .38 S&W, os espanhóis foram fabricados em tantos calibres distintos que muitos se confundem entre a própria família, como o caso do .320, 32-20 e o próprio .32… e como resultado disso, o público mais leigo acaba colocando tudo no mesmo balaio, como se tudo fosse .32 S&W. Só que essa é uma desinformação que costuma causar problemas, além do diâmetro destas munições serem minimamente distintas, .320 tem 8.13mm enquanto o .32 S&W tem 8.55 mm, as armas fabricadas para utilizar pólvora negra (que são as no calibre .320 e 32-20) são relativamente mais frágeis já que não necessitavam de um material tão rígido devido à baixa força da explosão da pólvora negra, muitas dessas armas são de ferro fundido ou aço com baixa composição de carbono, o que acaba se tornando perigoso quando utilizadas com munição nitro, que possuem o dobro da força ou mais.

01. Marcas de prova

A história do Banco de Provas de Eibar começa em 1878 quando surgiu a ideia de criar um local específico para testar armas de fogo produzida por eles, já que os testes existentes eram opcionais e limitados. Essa necessidade foi aumentando ao longo do fim do século XIX com a expansão da produção de armas até que, em 31 de janeiro de 1915, a Espanha aprovou a lei que criou oficialmente os Bancos de Provas, porém, a Primeira Guerra Mundial acabou atrasando sua implementação, fazendo com que o Banco de Eibar se tornasse oficial só em 1921.

Após a adesão da Espanha ao convênio internacional de 1923 os testes passaram a ter reconhecimento fora do país, o que levou, a partir de 14 de abril de 1924, à proibição da venda e exportação de armas sem marcas oficiais de prova. Uma última alteração na legislação aconteceu ainda em 1927 quando o governo solicitou que houvesse também a gravação do ano de fabricação nas armas, afim de obter um controle mais preciso. Esta gravação dos anos obedece a um padrão de ordem alfabética, sendo a letra A representando o ano de 1927, B para 1928 e assim sucessivamente. 

E como as marcas de prova são padrões únicos e exclusivos de seus países de origem, por consequência, acabam sendo uma forma muito eficiente para identificar a origem das armas que possuem essas gravações. Porém, como já mencionado acima, apenas as armas fabricadas a partir de 1921 na Espanha é que vão conter estas marcas de prova, e isso acaba excluindo uma boa quantidade de armas pois as réplicas já vinham sendo fabricadas desde 1907. Embora as marcas de prova seja a maneira mais eficiente de identificar um revólver espanhol, existem ainda outras opções que são tão conclusivas quanto.

02. Informações no topo do cano

Como mencionado anteriormente, em alguns tipos de gravação no topo do cano dos revólveres espanhóis existem as iniciais do fabricante, mais especificamente as gravações “American cartridges are those that fit best XX revolver” e derivados disto. Embora nem todas as gravações sejam como esta, como é o caso da gravação da SEDA (Sindicato Exportador de Armas) que fazia o serviço de exportar as armas de alguns fabricantes, nestas peças a gravação é “The Old Firearms Manufacture…”, apenas essas gravações já servem para confirmar que se trata de uma peça espanhola pois eram os padrões utilizados por eles.

E, obviamente, a ideia por trás destas gravações genéricas era induzir o consumidor a acreditar que estava levando uma peça “Americana”, já que é a única palavra nesta frase que é de fácil entendimento de todos, mesmo de quem não entende inglês. Porém a frase apenas indica o uso de munições americanas.

Em algumas peças a gravação é ainda mais audaciosa e menciona a Smith & Wesson, novamente, com o intuito de ludibriar o consumidor mais leigo. E vale lembrar também, estamos falando de 1920, uma época onde o acesso à informação e conhecimento era luxo.

Para base de comparação, as gravações dos revólveres S&W são sempre as mesmas, no caso, seguem sempre o mesmo padrão: marca/local/patente/data. E o revolver Colt, mais especificamente o Colt Police Positive, que também foi um dos modelos replicados pela região armeira de Eibar, segue o mesmo padrão.

03. Símbolos e Logotipos

Outra forma muito eficiente para se identificar um revólver espanhol é analisando os símbolos de modelo, frequentemente estampados na caixa lateral da arma, ou os logotipos do fabricante, frequentemente estampados no cabo. Embora os símbolos, em maioria, replicavam também o mesmo estilo tanto da S&W quanto da FN, com uma escrita meio cursiva e gótica, as letras que compõem são sempre distintas e relativamente fáceis de serem identificadas, basta um olhar um pouco mais minucioso. Algo importante a esclarecer aqui é que, embora o símbolo no cabo ajude em uma identificação, ele não pode ser o critério principal ou único desta análise visto que os cabos podem ser facilmente trocados, e em grande maioria dos revólveres espanhóis, eles são intercambiáveis e com um encaixe perfeito.

Neste tipo de identificação é importante ter cautela ao analisar as figuras e saber distinguir o que é símbolo e o que é logotipo, e digo isso pois é comum haver confusões entre o que é modelo e o que é fabricante. Na verdade, este assunto ainda vai muito além pois nem sempre o fabricante aparece estampado na peça e sim seu distribuidor, o que era uma prática muito comum em Eibar na época onde distribuidores que já tinham um renome no mercado de armas acabavam aparecendo e sendo a figura principal nas gravações da peça, com o intuito de se utilizar da própria imagem popular e de credibilidade para favorecer nas vendas.

Provavelmente o caso mais notório disso é do revólver Tanque, por sinal um bom exemplo onde muitos confundem modelo com fabricante, acreditando que Tanque era o nome da fábrica sendo que é o nome de modelo e alguns que conhecem um pouco mais a fundo acreditam que era Ojanguren y Vidosa o seu fabricante, sendo que eram apenas os distribuidores. Não vamos nos estender muito neste tema em específico, mas para não deixar o assunto do revólver Tanque à deriva pontuamos algumas coisas em ordem cronológica: Ojanguren y Vidosa aparecem como distribuidores de armas em Eibar a partir de 1919. Em 1921 Donato Ojanguren se une ao armeiro Marcaide para formar a sociedade Ojanguren y Marcaide onde fabricam alguns revólveres oscilantes e sem modelo, utilizavam apenas a própria marca, sigla “OM”. Em 1924 essa união, junto de Olave, Solozabal y Cia, criam a Fábrica de Armas Garantizadas com o intuito de reunir armeiros de excelência da região vasca para distribuir suas peças sobre esse novo rótulo, na tentativa de criar uma marca “elitizada”.

Em 1928 a marca “Tanque” é registrada por Ojanguren y Vidosa na classe 93, para todas as armas de fogo. Neste momento pode-se perguntar: se eles tinham a patente, se tinham a marca estampada nas peças, como não eram eles os fabricantes? E a resposta é o que já foi mencionado, eles não eram fabricantes de armas e sim distribuidores. Quem fabricava estas armas para eles era a Sociedade Cooperativa ALFA, por sinal muito desconhecida e pouco documentada, mas, felizmente documentada o suficiente para que tivéssemos acesso a essas informações e pudéssemos hoje, estar esclarecendo este assunto.

No livro “La Industria Armera Nacional 1830-1940” do mestre Calvó, ele deixa claro este assunto isso é até confirmado, pois em um anuncio de 1924, em um jornal local de Eibar, acabaram deixando escapar esta informação de que os Ojanguren y Vidosa eram apenas distribuidores exclusivos da marca…

Dissemos “escapar” pois como mencionado, a ideia de deixar um distribuidor a frente de uma marca era fazer com que parecesse que o mesmo a fabricava, que fosse o dono, assim utilizando sua credibilidade para alavancar as vendas; e como sabemos, funcionou…

Tanque foi uma das armas mais produzidas em Eibar, chegando a ter 55 mil unidades exportadas por ano. Uma dica importante para não confundir modelo com fabricante é que, normalmente, os fabricantes possuem um logotipo composto de iniciais: HO, BH, TAC, GH, AE, etc. E os modelos possuem sempre um nome corrido: Tanque, Detective, Destroyer, Goliat, etc.

04. Desenho das tampas laterais

Por último, mas não menos importante, o formato das tampas laterais — ou a ausência delas. Estas tampas não apenas nos ajudam na identificação dos revólveres espanhóis como também servem para definir a qualidade de cada arma. Para adentrar neste assunto vamos voltar um pouco no tempo para compreender melhor, mais especificamente até o começo do século passado na região vasca de Eibar, pouco desenvolvida economicamente e que dependia de grande parte da fabricação e do comércio de armas para se manter.

Neste período a maioria das fábricas nesta região ainda funcionavam a vapor, com maquinários rústicos e de pouca precisão se comparado ao de grandes fabricantes como a própria S&W; este fato nos leva ao desenho das tampas laterais onde para que pudessem ser feitos, era necessário um corte milimetricamente preciso tanto no bloco de aço que seria usinado para o formato do revólver, quanto na chapa que se tornaria a tampa. E, obviamente, nem todas as fábricas tinham o aporte necessário para comprar esses equipamentos e graças a essa limitação é que surgiram os padrões de qualidade, como definidos por eles mesmos, os fabricantes.

Os revólveres de primeira linha eram fabricados quase exclusivamente por grandes empresas da região como a Orbea Hermanos, Garate y Anitua, Antonio Errasti, etc. e eram peças de grande refino que replicavam com uma relativa precisão os revolveres S&W, o que inclui o desenho da tampa lateral, grande e fiel aos originais. Os revólveres de segunda linha seguem basicamente o mesmo contexto dos revólveres de primeira linha, fabricados também por grandes empresas, porém já não possuíam um refino tão apurado, assim como o material já não era mais um aço fino e por consequência o único acabamento possível seria o niquelado, visto que para a oxidação era necessário um material puro, do contrário haveria manchas. Este assunto dos acabamentos também se estende para muito além disso; aliás temos um artigo aqui no site, Restauração, Conservação e Avaliação de armas Novas e Antigas.

Se enganam os antigos, que acreditam que revolver “cromado” era revólver bom, revólver de luxo. Claro, há revólveres de primeira linha que são niquelados também, mas nem de longe isso é critério para definir uma boa qualidade, como já explicado. Enfim, estes revólveres de segunda linha possuem não apenas uma tampa lateral menor como também um mecanismo ligeiramente mais simplificado, com uma mola V única e que permitia a manutenção do mesmo sem a necessidade de toda a caixa do revólver estar aberta.

Mas como mencionado no começo deste capítulo, existem ainda os revólveres onde a tampa lateral é ausente e o acesso todo do mecanismo se dá pelo guarda-mato, que são os revólveres chamados de “caixa fechada”. Esta característica, assim como a tampa menor dos revólveres de segunda linha, é única dos revólveres espanhóis e que servem para identificações mais complexas, quando por exemplo, a peça já não possui mais nenhuma gravação legível. Estes revólveres eram os de segunda linha, com mola em V e mecanismo simplificado, mas sem a tampa, e eram a opção mais barata do mercado e também o modelo que serviu de entrada para muitos armeiros na região.

De qualquer maneira, de primeira ou de segunda linha, a verdade é que é inegável a importância que essas armas tiveram na época, como influenciaram o mercado tanto local como o estrangeiro, fornecendo principalmente aos países sul-americanos e mesmo à alguns da Europa a escolha por uma opção mais acessível, com uma qualidade razoável e até bem aceitável, dependendo do fabricante. Isso abriu oportunidades aos consumidores de renda mais baixa terem oportunidade de possuírem armas com bom índice de confiabilidade e durabilidade.

Lucas Matheus Klaus: entusiasta e colecionador de armas curtas espanholas modernas, autor dos livros Eibar 1900 e Brasil de Armas.

Written by Carlos F P Neto

25/01/2026 às 21:11